Por Roberto Vertamatti
As projeções recentes indicam que teremos um crescimento do PIB importante em 2010. Nossa estimativa é em torno de 6%, mas o governo já aponta 7% neste ano. De qualquer forma esses números mostram um desenvolvimento robusto, mas não podemos esquecer que em 2009, em função da crise mundial, o crescimento foi negativo em 0,2% – o único ano sem crescimento nos últimos 17 anos.
Importante salientar que nos últimos anos o crescimento da renda, em especial para os assalariados, foi significativo para boa parte da população. O que provocou uma boa redução da pobreza em nosso país e consequentemente o aumento do poder de consumo. Mesmo assim, é bom registrar que ainda temos um contingente de mais de 60 milhões de pessoas que passam fome no Brasil, conforme apontou a recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008 / 2009, divulgada pelo IBGE.
Apesar de termos conquistados patamares mais altos nos últimos anos, ainda temos muito por fazer. Os partidos, junto com seus candidatos, depositaram na Justiça Eleitoral os programas de governo – nenhum deles detalhado o suficiente ou discutidos mais abertamente com a população. Isto nos mostra que os candidatos não estão preocupados com qualquer plano de governo mais efetivo, que aponte para o Brasil daqui a 10 ou 20 anos. E sim, estão em campanha apenas com a visão do hoje, ao que parece com um bom crescimento econômico, mas pouco assertivo no sentido que falta muito por caminhar. Não está incluso nesse percurso a preocupação e metas para que não mais tenhamos cidadãos sem alimento suficiente neste país; que não haja qualquer atitude contrária à vida em qualquer estágio da existência humana, o maior bem da nossa existência; que tenhamos uma melhoria clara em nosso sistema de educação (este sim o maior garantidor do futuro de uma nação) e, que tenhamos mais segurança.
Como vemos há muito ainda por fazer. Além da educação, precisamos investir muito na infra-estrutura viária, de portos, aeroportos, saneamento básico, só para citar alguns. Temos que fazer muito também no âmbito da saúde pública. A impressão é que caminhamos nos últimos anos, mas ainda percorremos um pequeno trecho da longa estrada que temos pela frente. Outros aspectos que precisam ser considerados pelos candidatos têm a ver com a estruturação da nossa economia para um crescimento sustentável: se não houver um maior controle do gasto público que propicie, por um lado, uma redução dos tributos e, por outro, uma redução efetiva dos juros no Brasil – que ainda são dos mais altos do mundo – não teremos um crescimento sustentável.
Quando falamos de reforma tributária, não estamos discorrendo somente da carga tributária em si, mas também da absurda complicação que é esta carga, com mais de 70 impostos, entre contribuições, taxas etc. Além de termos uma marca muito triste de campeão em horas trabalhadas para pagar impostos, conforme consta do “Doing Business”, realizado pelo Banco Mundial e pela PriceWaterhouseCoopers. Estamos no triste topo da lista entre 183 países pesquisados e gastamos 2.600 horas por ano para controle e pagamentos de impostos, enquanto os que menos gastam estão em torno de 100 horas/ano.
Recentemente, o Banco Mundial também divulgou uma lista de 87 países pelo tempo em que um estrangeiro gasta para abrir uma empresa. No Brasil, estamos no topo da lista, com 166 dias, enquanto nos Estados Unidos são 11 dias, na Grã-Bretanha 14 dias e na China 99 dias.
Fala-se muito da questão de segurança e não restam dúvidas que precisamos considerar este assunto em um nível de poder maior do que temos hoje. Precisamos profissionalizar de forma mais intensa e definitiva todo o aparato que trata da segurança. E é fato que a questão da segurança está muito ligada ao nível de corrupção no país. Ou reduzimos drasticamente a corrupção, ou a questão da segurança não terá solução. A ONG Transparência Internacional divulgou, no final de 2009, o relatório do Índice de Percepção de Corrupção. E, mais uma vez o Brasil teve o desempenho esperado. Numa escala que vai de zero (mais corrupto) a dez ( considerado bem pouco corrupto), o Brasil marcou 3,7 e ficou em 75º lugar no ranking de 180 países avaliados.
É evidente que os pontos acima mencionados precisam ser detalhados e aprofundados, mas se em linhas gerais os candidatos assumirem e buscarem a realização, estaremos, sem dúvida, começando uma nova época na vida deste país que ainda está “deitado eternamente em berço esplendido”.
Roberto Vertamatti é conselheiro da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC)